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sexta-feira, 23 de maio de 2014

SANGUE EM EBULIÇÃO

A SECA FERE, A SECA MATA
DESTRÓI FUTURO, DESTRÓI IDEAIS
A SECA É CRUEL, A SECA MALTRATA
EXTINGUE PLANTAS, EXTINGUE ANIMAIS

A SECA, A FOME, A FALTA DE AJUDA
HOMENS ABANDONADOS, SEM DESTINO
A MORTE LENTA, A DOENÇA AGUDA
HOMENS DESESPERADOS, TOTAL DESATINO

É PAU, É PEDRA, É A FALTA DE CARINHO
É UM POVO SOFRENDO, É UM POVO SOZINHO
É A SECA CRUEL DEVORANDO O SERTÃO
É UM ESPINHO DE CACTO NO SEU CORAÇÃO

AH! QUEM ME DERA EU DEIXAR
DE COMER TERRA E PÓ
OS ALIMENTOS QUE COMO
AMARGAM QUE NEM JILÓ

E QUANDO CHEGA O RIGOROSO VERÃO
É TEMPO DE AGONIA PARA O NOSSO CORAÇÃO
QUEM VIVE SOFRE E QUEM MORRE VAI EM PAZ
É A TRISTE SINA VIL POR DEMAIS


             CARLOS ALBERTO DE MATOS

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mãos – Agentes da Nossa História

Mãos brancas, pretas, amarelas,
Grandes, médias, pequenas,
Filosóficas, trabalhadoras, artísticas,
Quantas diferenças trazem
Em seu uso, seu tocar.
Quantas coisas podem
A vida, o homem, o mundo mudar.

Podem levar o amor,
O carinho, a compreensão.
Podem, com uma caneta, uma pena,
Transformar nossa mente,
Nosso coração.
 
Podem transformar o mundo,
Determinar uma trégua,
Ou ativar uma grande explosão.
Com um único gesto,
Um simples tocar,
Podem cativar
Um triste e solitário coração.
Ou podem dar fim a vidas, sonhos,
Ou à beleza da natureza,
Derrubando árvores,
Poluindo rios, mares,
Matando nosso planeta,
Nossa chance de redenção.
Matando nossas belezas...

Agentes ativos da história,
Que seria de nós
Sem elas
Para nosso passado,

Nosso futuro, contar...
Símbolo impar da inteligência
Ou ignorância humana,
Seu bom ou mau uso
É que fará nosso mundo mudar.
Seu bom ou mau uso
É que fará a diferença
Entre o acariciar ou o atirar.
É que fará a diferença
Entre nos aproximar
E muitos problemas solucionar,
Dando-nos as mãos sem medos,
Barreiras
Ou preconceitos,
Fazendo a paz,
Finalmente chegar.
Fazendo o amor,
Finalmente, nos transformar,
Para que de homens
Possamos, realmente,
Sermos humanos
E esse adjetivo podermos,
Enfim, utilizar.

Geralda Sales

Mãe


Difícil viver sem ti,
Difícil viver sem teu amor,
Sem teu carinho, sem teus cuidados.
Mas é preciso, Mãe, seguir meu caminho,
Tomar novos rumos,
Quebrar esta dependência,
Tornar-me Eu, e não uma extensão Tua.
É necessário, Mãe, quebrar as amarras,
Romper o medo, seguir em frente.
É necessário, bem sei,
Ter-te presente em minha mente,
Meu coração.
É preciso, Mãe, não esquecer as lições,
Tudo que me ensinaste.
Mas é necessário, também,
Saberes que o tempo é outro,
Os valores são outros, e tudo é muito rápido.
Não te preocupes, Mãe!
Tuas lições ficaram.
Elas são a base do meu dia-a-dia.

Mesmo à distância, mesmo sem estares aqui,
Existes em mim em toda tua plenitude.
Mesmo em nossas diferenças,
Mesmo em nossas divergências,
E nas tantas e tantas vezes que brigamos,
Que discutimos,
Que não soubemos nos entender,
Que duvidamos do nosso amor,
Que negamos o nosso amor
E, no entanto, Mãe,
O que mais quero
É abraçar-te carinhosamente
E, do fundo do meu coração,
Dizer-te baixinho, suavemente:
“Mãe, eu te amo!”

Geralda Sales

Lugar ao Sol

Na força brutalmente suave,
A flor fere o asfalto,
Surge do nada,
Dá-nos uma lição:
A lição do acreditar,
Do ter sempre a esperança.
A esperança de conquistar,
Mesmo a duras-penas
Ou lágrimas derramadas,
O seu lugar ao sol.
Mesmo vindo do nada.

Geralda Sales

LEMBRANÇAS DE UMA INFÂNCIA FELIZ

Móveis da pobreza:
Tão iguais, tão comuns, tão pobres...
Muitas vezes de segunda ou terceira mão.
Passado volta,
Lembranças voltam:
Anos de pobreza, de sofrimento,
Cama com outros irmãos dividida.

Tempos difíceis na panela,
Nunca vazia,
Mas nunca repleta...
Pedaços contados,
Quantidade limitada,
Água no leite,
Chafé,
Farinha com açúcar,
Papa emboloada,
Cuscuz com leite, a desejar,
Feijão simples,
Arroz branco...
Galinha...só aos domingos
Carne, bife...só para “cheirar”.

Infância feliz, livre,
Com responsabilidades,
Obrigações, deveres, estudo,
Brincadeiras de rua.

Infância feliz,
Longe das bonecas,
Dos brinquedos industrializados,
Ao lado dos irmãos,
Amigos e moleques de rua,
Vivendo a liberdade
Que só as crianças pobres podem ter.
Vivendo a criatividade
Que a criança pobre aprende a ter,
Inventando brinquedos,
Diversão,
Utilizando-se do lixo,
Das sucatas,
Da natureza,
Em seus jogos de infância,
Seu parque de diversão.

Imitando adultos,
Filmes, televisão,
Nas brincadeiras de mocinho e bandido,
Ou nos programas de auditório
Do rádio e da televisão.

Criança não sente o drama,
A imensidão do drama,
Da pouca comida à mesa,
Do sofrimento dos pais,
Das contas na mercearia,
Da labuta do dia-a-dia.

Gaivota (Geralda Sales)

Guerras

Guerras pelo poder,
Necessidade de medir forças,
Necessidade de optar por este
Ou aquele grupo.
Por que isso?
Por que tanta agressão?
O melhor não é a paz, a união?
Por que não tentar a coesão
Em cima do companheirismo,
Da ajuda mútua, da união?

Tudo o que querem é o poder,
Tudo o que buscam é o poder.
E, por isso, usam hipocritamente,
A palavra “união”.

E os tolos seguem atrás,
Seguem seus passos,
Erguem suas bandeiras,
Para depois serem abandonados,
Jogados de lado,
Pois já cumpriram sua missão.

Gosto da paz, da harmonia,
Mas sei que é utopia,
Que é sonho, ou até “burrice”,
Esse tal consenso,
Essa tal coesão.

Pessoas são indivíduos,
Têm idéias, desejos,
Experiências e interesses próprios.
Tão logo saciados,
Acabou o consenso, acabou a coesão.
Pois o que importa é o poder.
É o jogo de articulação.

E tudo isso é uma pena...

Geralda Sales

Fuga

No medo da guerra,
Dessas brigas idiotas,
Onde homens e mulheres
Destroem o pouco que restou,
O pouco que ficou,
De uma vivência,
Uma convivência,
De ódio, de amor,
Perco-me dessa ambição,
Na luta deste sistema,
Para mim,
Em decomposição.
E me refugio
Nesta utópica solução
Que é resolver tantos problemas,
Perdendo-me na multidão.

Geralda Sales

És (Ex) Paraíso


Belo paraíso,
Quão ingrata
Tua função social é.
Natureza exótica,
Exuberante,
Jogada fora
Pelos muros e grades
Que a ti devoram,
Marginalizando-te
Como a aqueles
Que aqui puseram
Para as chagas da sociedade
Poderem ocultar,
Transformando-te
De paraíso ecológico,
Potencial turístico,
Numa grande seqüela
De uma ferida
Que não sabemos
Se um dia vai cicatrizar.
Pobre de ti,
Bela Ilha de Itamaracá!

Gearalda Sales

Vôo Rasante


Voar,
Planar,
Sem medo
Do desapego,
Da solidão...
Voar...
Ousada,
Desafiando
O espaço,
A luz,
A escuridão...
Voar,
Num vôo
Rasante,
Desafiando o medo
Na contramão...
Voar...
Confusa,
Carente...
Sabendo
Que o eterno voar
É a eterna
Solidão.

 Geralda Sales

Tua Distância

Se ao te ver me deixas louca,
Mais louca fico longe do teu olhar.
Se perto de mim estás
E teus braços não me tocam,
Teu olhar não me busca,
Tua boca não me fala,
Teu silêncio me atordoa,
Tua distância me magoa
E..., magoada...,
Busco me afastar.

Geralda Sales

Sensatez


Viver o hoje,
Loucamente,
Intensamente,
Sem pensar no amanhã,
É negar planos,
Esquecer objetivos,
Dificultar o futuro.

Viver irresponsavelmente
O presente, o agora,
É uma utópica fantasia.
É negar o futuro, o amanhã,
Como resultado do nosso agora.
É esquecer que o hoje
No ontem se transforma,
E que o ontem,
No agora se transformou.

Momentos de loucura,
E de seriedade
São necessários,
Temos que cultivar.
Mas não devemos esquecer
Que a verdadeira liberdade
Vem da responsabilidade,
Da alegria de objetivos alcançados,
Da meta cumprida,
De nada dever
A si ou a alguém.

Geralda Sales

Semente de Luz

Plantando boa semente,
Insistindo,
Acreditando no solo,
Em sua riqueza escondida,
Coberta com pedras,
Espinhos,
Desiludida com a vida.
Cultivando com carinho,
Amor e diálogo,
Numa sincera amizade,
Mantendo a esperança
De ver germinar,
Crescer
E se desenvolver
Com independência
E suavidade.
Sendo como a rosa
Que embeleza,
Perfuma,
Alegra
E sabe se defender,
Sem precisar de agressividade.

Geralda Sales

Recomeço

E a história volta,
Se refaz,
Após anos,
Após subidas
E descidas,
Após toda uma vida.
Volta mais madura,
Na esperança do acerto,
Do reencontro de duas linhas,
De um destino traçado,
Guardado,
Como um vinho
Que tem que amadurecer,
Envelhecer,
Para ser, realmente,
Apreciado.
Para ter o valor buscado,
Merecido,
Que tem de ser saboreado
Aos poucos, pacientemente,
Para que possa surtir
O efeito desejado.

 Geralda Sales

Procura-se


Procura-se um homem,
Um cúmplice, um companheiro,
Que saiba ser urbano,
Mas que também saiba
Ser puro, ser brejeiro.
Que saiba ser maduro,
Mas, também, moleque,
Incerto, aventureiro.
Que saiba ter a calma,
A sensatez na hora certa
Do momento incerto,
Mas que também
Saiba ter a chama,
Ser a chama
Que me incendeia,
Que me desperta.
Que saiba ser suave,
Mas também selvagem,
Em nossa intimidade.
Não precisa ser santo,
Nem de todo insanto,
Mas precisa ser sincero,
Ser franco, ser direto.
Não precisa ser bonito,
Mas a cabeça é fundamental:
Tem que ser livre.
Livre de barreiras
Ou preconceitos.
Que saiba ser homem:
Ser forte, ser frágil,
Ser confiável.
Mas machismo...,
É dispensável.

Geralda Sales

Pivetes

Raquíticos, feios,
Sujos, maltrapilhos.
Quanta força:
Basta estar,
Basta um gesto, um olhar,
Um andar, uma direção,
E o temor chega, o medo chega.
O medo de suas mãos,
Do que elas carregam
Ou podem carregar:
Um relógio, uma bolsa,
Uma esperança, uma vida.
Vida insegura, vida dura.
Não tão dura quanto a deles:
Sem um afeto, um lar
Ou um pedaço de pão para mastigar,
Para enganar a vida
Que lhes é mais dura.
Cheiram cola, usam droga,
Comem lixo, batem carteiras,
Usam navalhas,
Descolam um cigarro,
Roubam um carro
Para a vida poder enfrentar.
Fogem da polícia,
Pedem por justiça
A uma sociedade
Que os faz se transformar:
Não são crianças,
Não têm mais inocência,
A pureza foi embora,
A realidade agora é outra.
Fica-lhes difícil voltar.
São pivetes, cheira-colas,
Trombadinhas.

Destino certo, forçado,
Traçado, feito por nós
Que os teimamos em marginalizar.
São sementes jogadas fora,
Deixadas ao relento
Para germinar.
Germinar de qualquer forma,
Não ligando para padrões,
Normas,
Ou para a luta popular.
Sentem-se agredidos,
Roubados, injustiçados,
Por quem tem um pão,
Um afeto, um lar.
Sociedade,
Mãe frutífera, mãe hipócrita,
Que lava as mãos
E não quer de seus filhos,
Suas sementes, cuidar.
Mãe injusta,
Riqueza mal dividida,
Que a tantos sabe matar,
Que tantos destinos sabe selar.

Geralda Sales

Palco

Em tuas mãos mágicas,
No meu corpo,
A me desvendar,
Entrego-me,
Sem mistérios,
Completamente tua,
A me desafiar,
Em teus lábios, vermelhos,
Tua boca, carnuda,
Excito-me,
Só a olhar.
Em nossas mãos,
Em sua linguagem
Erótica, sensual,
Ponho-me a “viajar”.
Nas brincadeiras de cama,
Teatro sexual,
Encontro novas maneiras
De amar.

Geralda Sales

Ópio

Vida do jogo,
Do uso,
Desuso,
Do saber com quem,
Com o que jogar,
No emaranhado de vidas,
Quais linhas que se cruzam,
Machucando-nos
E nos deixando machucar.
Aprendendo lições
De ódio,
De amor,
Vivendo de ilusões
No ópio das paixões
Que nos vive a embriagar,
Que nos põe cegos,
Indefesos,
Quais náufragos
Em noite escura,
Sem luar.

Geralda Sales

Olhar Fotográfico

Quisera meus olhos fossem uma objetiva,
Uma máquina fotográfica
Para registrar teu olhar,
A ternura que passas para mim
Quando fazemos amor,
Quando me olhas nos olhos
E me dizes, sem falar,
De todo teu amor por mim.
E me encantas.
Ninguém jamais me olhou assim,
Ninguém jamais me falou assim,
Tão profundo,
Com tanto carinho,
Com tanta ternura.
Quisera poder te falar assim,
Quisera essa capacidade
De tanto te amar,
De toda me entregar.

Geralda Sales

O SONHO DA ECOGLOBALIZAÇÃO

Gente de todo o planeta morre e passa fome

Luta e sonha por melhores condições de vida
Onde ricos e pobres possam conviver
Buscando a harmonia e a
Administração de uma economia
Livre da agressão ao meio ambiente
Investindo em outras alternativas
Zelando por nosso mundo, nossa casa.
Acreditando que é possível
Crescer e desenvolver uma nação, um povo
Através da cooperação e respeito mútuos
Onde o global seja o humano, positivo e ético.




Mulher

Mãe, menina, moleca, mulher,
Quão grande é tua alma, teu coração,
Tua capacidade de abnegar
Mesmo na mais dura provação.

Quão forte és, Mulher,
Para suportar tanta dor, tanto sofrer,
Para suportar tua quase total escravidão
A teus filhos, teu marido,
Ao teu patrão.

Como consegues, Mulher,
Ser tão forte, tão frágil, tão suave,
Num mundo de tantas adversidades?

Carregas em tua vida, tua caminhada,
A constante preocupação
Por teu marido, teus filhos,
Que nem sempre compreendem,
Que nem sempre reconhecem
Essa tua enorme dedicação.

Como podes, Mulher,
Ser deusa, ser escrava
E, ao mesmo tempo,
Ser apenas...Mulher?

Abençoada sejas tu, Mulher,
Que fazes do amor
Tua fonte de criação.

Geralda Sales